Águas subterrâneas e atmosféricas são motivos de palestras

A importância do uso racional da água para a saúde ambiental e socioeconômica, causas e efeitos dos fenômenos naturais da atmosfera, orientações para a construção bem feita de poços artesianos ou de um simples clorador por difusão para desinfetar águas subterrâneas estiveram em pauta durante a Capacitação da Gestão de Recursos Hídricos, em Belém, no Gold Mar Hotel. A Iniciativa é da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema), por intermédio da Diretoria de Recursos Hídricos (Direh).
 
No primeiro dia da capacitação, quinta-feira, 12, o meteorologista Rafael Costa, da Sema, explicou os fenômenos da natureza, que envolvem a água na atmosfera, ao público formado por representantes de associações de pescadores, agricultores, das mulheres profissionais, do projeto de macrodrenagem do rio Tucunduba, do Conselho Gestor do Parque Estadual do Utinga, das instituições públicas do Estado, secretarias municipais de meio ambiente da Região Metropolitana de Belém e usuários da indústria da pesca, da navegação, mineração e comércio.
 
Para ampliar o conhecimento da população a respeito das águas, o meteorologista explicou a irradiação solar como base do aquecimento, evaporação, condensação, precipitação, transpiração vegetal, a formação dos diversos tipos de nuvens, o transporte do vapor d’água e a interceptação de cerca de 20% das chuvas retidas nas copas das árvores, para mostrar as consequências nocivas do desmatamento na natureza. “O desmatamento influencia na quantidade de água que deveria seguir o caminho natural de volta à atmosfera com transpiração vegetal, feita pelas árvores, mas a chuva cai diretamente no solo e segue outros caminhos”, alerta.
Rafael esclareceu ainda a questão das enchentes nas cidades impermeabilizadas, porque as tempestades sempre aconteceram. “O que mudou é a presença de pessoas e a pavimentação das ruas”, observa o técnico.
 
Tempo e clima – O meteorologista Saulo Carvalho, do quadro da Sema, deu sequência à palestra de Rafael Costa ao falar das enchentes resultantes do fenômeno La Niña (“A menina”). Falou ainda do fenômeno meteorológico similar, o El Nino (“O menino”). Os nomes são uma forma de mostrar que os fenômenos assumem papéis inversos, enquanto o El Niño esquenta as águas do oceano Pacífico, a La Niña faz o oposto, resfria as águas. Isso interfere diretamente nas mudanças climáticas.
Segundo Carvalho, os dois fenômenos não são recentes, registros históricos datam ocorrências desde o século XIX, mas eles viraram foco de atenção somente na segunda metade do século XX. “Foi quando a sociedade passou a conhecer o El Niño e a La Niña devido à mídia que noticiou de forma ostensiva os estragos causados por ambos”, explicou o meteorologista.
 
Entre as conseqüências do El Niño estão a diminuição das chuvas e as secas, o que contribui para a morte de animais e os incêndios florestais. Já La Niña causa enchentes, inundações e temperaturas baixas para a época, ou seja, uma precipitação de inverno em alguns locais.
 
Colheitas são estragadas e na cidade muitas pessoas ficam desabrigadas devido aos desmoronamentos de barrancos e inundações de casas.
 
Carvalho acredita que o uso desenfreado dos recursos naturais, a poluição em larga escala e a ocupação desordenada do solo contribuem para a ocorrência dos fenômenos. “Uma possível solução seria um fortalecimento das políticas de educação ambiental e o uso racional dos recursos”, deduziu Saulo.
 
Saulo informou, ainda, da criação do Centro Estadual de Meteorologia e Hidrologia do Pará (Cemhpa), uma iniciativa da Direh, que estuda uma parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias (Embrapa). O Cemhpa fará os boletins de análise e previsão climática em nível regional. “É uma iniciativa que ajudará muito a agricultura no Estado, pois será possível informar, com antecedência, os meses que serão adequados a cada plantio”, revelou o meteorologista.
 
Saulo também falou da previsão do tempo e clima e das aplicações e demonstrativos de ambos.
 
Construção de poços – O pesquisador em Geociências e mestre na área de Hidrologia, Homero Reis de Melo, da Companhia de Pesquisa de Recursos Naturais (CPRN), iniciou o módulo “Águas Subterrâneas”, na sexta-feira, 13, dia do encerramento do circuito de palestras.
 
Homero explicou a distribuição de água no planeta. “97% das águas no planeta são de origem oceânica, apenas 3% são de água doce, deste percentual 77% estão nos pólos e glaciares, ou seja, são de difícil acesso; 22% são de águas subterrâneas e somente 1% está na superfície, muitas dessas águas, por questão de maior exposição ao homem, já estão contaminadas. Temos que nos focar, então, nesses 22% de água subterrânea, que, sem interferência, é a água mais indicada para o consumo”, revelou o pesquisador.
 
Melo destacou o ciclo hidrológico, a ocorrência da água subterrânea, os tipos de aquíferos e se estendeu na construção de poços tubulares, também chamados de artesianos ou semi-artesianos.
 
“O poço é o método mais prático e eficiente de se captar água subterrânea”, explicou Melo. Para construir um poço, deve-se primeiro contratar um responsável técnico. “Pode ser um geólogo ou um engenheiro de minas, licenciado pelo Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (Crea), nada de recorrer ao Zé do Poço, porque depois a pessoa terá prejuízo”, lembrou o geólogo.
 
Entre os componentes de um poço bem construído estão o revestimento, o filtro, o pré-filtro, a cimentação e o equipamento de bombeamento.
 
A pessoa pode construir um poço por meio da percussão, que é a subida e descida contínua de uma ferramenta pesada, o trépano. Pode utilizar o método rotativo, que é a trituração por rotação ou fazer uso do meio rotopneumático, que é a junção dos métodos anteriores, em que se utiliza percussão e alta frequência com pequeno curso em rotação (ar comprimido). Este método é o mais usado por grandes empresas.
 
Melo explicou que um poço mal construído não causa danos só para quem o utiliza, mas para uma população inteira “Um poço construído em uma área mais baixa do que a fossa do vizinho, provavelmente será contaminado pelos coliformes fecais e passará essa contaminação para o lençol freático, pois as águas subterrâneas não ficam paradas”, revelou.
 
Outra fonte de contaminação das águas são os cemitérios construídos em locais inadequados. O necrochorume, que é o líquido proveniente da decomposição de cadáveres, se for arrastado pelas chuvas, pode atingir o lençol freático. “É um problema gravíssimo de saúde pública, pois o necrochorume tem microorganismos patogênicos, uma fonte de doenças”, lembrou Melo.
 
A solução, segundo o pesquisador, está em se avaliar as condições do solo e a profundidade dos aquíferos antes de se construir um cemitério.
 
A palestra teve seu lado prático: o pesquisador ensinou aos participantes uma forma barata de desinfetar a água e torná-la própria para o consumo, por meio de um clorador por difusão, que é um equipamento artesanal, simples, de baixíssimo custo, eficiente desinfetante da água e grande preventivo de doenças de veiculação hídrica.
 
Atenção redobrada da plateia, que utiliza águas subterrâneas no dia-a-dia, para as etapas da construção do purificador: o pesquisador em geociências demonstrou que uma simples garrafa pet, cheia de areia fina (80%), misturada com cloro (20%), com pequenos furos e submersa nos poços com revestimento elimina 99% dos coliformes fecais vindos de infiltrações causadas por fossas mal construídas ao redor desses poços. As cisternas também devem receber o produto. A troca por outra garrafa com areia e cloro deve ser feita a cada 15 dias.
 
Diarréias, micoses e outras doenças transmitidas pela água e que atingem principalmente crianças e idosos são evitadas com essa fácil mistura com cloro, o melhor desinfetante para a água bebida.
 
“Educação ambiental é um trabalho de formiguinha. Um evento como esse transfere o conhecimento a vocês para multiplicação em suas comunidades”, disse o pesquisador Melo aos participantes. Assuntos de interesse público como a contaminação das águas subterrâneas das cidades causada por postos de combustíveis, aplicação de agrotóxicos, depósitos de lixo, esgotos também foram tratados. Até a necessária devolução dos vasilhames de produtos químicos para livrar o meio ambiente desse lixo tóxico foi citada como de obrigatória aceitação por parte do vendedor. “É lei”, garantiu na ocasião da Capacitação.
 
Conflitos políticos e econômicos gerados pela utilização da água têm a intermediação do Estado, que dá a outorga da água. A Sema está elaborando um manual de orientação com os requisitos e critérios para concessão da outorga, que deveráestar nas mãos dos interessados no início de 2010.
 
“A ampliação do conhecimento e o uso racional dos recursos hídricos” é a síntese que faz a coordenadora da Capacitação de Gestão Hídrica, engenheira sanitarista e gerente de Planejamento da Sema, Verônica Santos. Ela relembra que esta abordagem sobre águas atmosféricas e subterrâneas foi precedida por um módulo que tratou da legislação hídrica, e terá sequência com outro evento dedicado às águas superficiais, prevista para dezembro deste ano.
Luiz Otávio
Ana Miranda
 
Ascom Sema/PA
 
 
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