Governo quer incentivar manejo florestal comunitário em Almeirim

A governadora Ana Júlia Carepa quer ampliar para todo o município de Almeirim, no noroeste do pará, o sistema de manejo florestal comunitário já desenvolvido em 38 comunidades que vivem na área do Grupo Orsa, no Vale do Jari. A empresa detém na região um grande projeto de produção de celulose e plano de manejo florestal sustentável, certificados, e oferece incentivos para 30 comunidades, das 98 que se estabeleceram na área.

A ideia surgiu durante visita à comunidade Guete, que recebeu ajuda financeira da Fundação Orça, braço social do grupo, para produção de eucalipto na forma de integrados. O cultivo homogêneo é consorciado com outras culturas, como pimenta do reino, espécies frutíferas, mandioca, banana, feijão, milho e curauá, uma bromélia da Amazônia da qual é extraída uma fibra utilizada pela indústria automobilística, na fabricação de componentes internos de veículos.

Ao constatar a geração de renda conquistada pelas famílias beneficiadas, a governadora propôs ao presidente do Grupo Orsa, Sérgio Amoroso, o desenvolvimento de um projeto que possa ser ampliado para outras famílias de agricultores do município, que estão fora da área da Orsa e que atualmente vivem sem perspectivas econômicas.

A governadora acredita que, com incentivo e assistência técnica, essas famílias poderiam diversificar suas atividades e melhorar a qualidade de vida. Hoje, boa parte tem dificuldade de acesso ao crédito por inadimplência na rede bancária. Segundo Ana Júlia Carepa, é preciso regularizar a situação desses produtores nos bancos, para que possam ter novamente o acesso ao crédito para investir em suas atividades. A parceria com o Grupo Orsa é importante porque a empresa tem condições de comprar tanto o curauá quanto o eucalipto, frisou a governadora.

Acompanhada do secretário de Meio Ambiente, Aníbal Picanço, da diretora geral do Instituto de Desenvolvimento Florestal (Ideflor), Raimunda Monteiro, do procurador geral do Estado, Ibrahim Rocha, do assessor do Instituto de Terras (Iterpa), Girolamo Treccani e de outros integrantes do governo, Ana Júlia Carepa finalizou nesta quinta-feira (23) a visita de dois dias ao Grupo Orsa no Vale do Jari.

Exemplo – Na comunidade Guete, onde vivem 20 famílias, a comitiva conheceu Manoel Santos Oliveira, conhecido por "Seu Mereco", beneficiado pelo Grupo Orsa. Com uma área cultivada de 4,3 hectares, ele tem um plantio de eucalipto consorciado com curauá, e desenvolve outras culturas, como tangerina, limão, graviola, cupuaçu, pimenta do reino, cacau, mandioca e banana, que lhe garantem o sustento da família.

Em uma área degradada, Manoel plantou açaí consorciado com cacau e cupuaçu, e mostrou satisfeito a recuperação de um pequeno manancial de água, que agora é perene. O filho do agricultor faz o curso de técnico agrícola no Amapá e já traz conhecimentos para a propriedade. A família toda trabalha na área, evitando a contratação de mão de obra externa. Na área de Manoel há uma significativa reserva de floresta nativa, que ele garante conservar para contribuir com a qualidade do clima do planeta.

O custeio das despesas da família é retirado da comercialização das culturas de ciclo curto, depois do primeiro ano de plantio. A cada seis meses o curauá é colhido, e bem manejado pode render até R$ 12 mil por ano em cada hectare. O eucalipto, que começa a ser cortado aos setes anos, é uma poupança, explicou Sérgio Amoroso.

Manejo sustentável – Antes de visitar a comunidade, a governadora e a comitiva conheceram uma parte da área de manejo florestal sustentável da Orsa Florestal. São 545 mil hectares de floresta nativa, certificada pelo FSC (Forest Stwardship Council). Para Euclides Reckziegel, coordenador de produtos florestais da empresa, o manejo evita a clandestinidade, ajuda a combater o desmatamento e o uso indevido do solo.

Segundo Reckziegel, a certificação florestal garante ao comprador de madeira nativa que as práticas de exploração desse recurso natural respeitam critérios reconhecidos internacionalmente, pois são socialmente justas, economicamente viáveis e ambientalmente adequadas.

A área do Plano de Manejo Florestal Sustentável (PMFS) da Orsa Florestal é subdividida em blocos, onde é feito um levantamento prévio até a derrubada da árvore, como o mapeamento das espécies e a implantação de infraestrutura. De cada hectare podem ser retirados até 30 m3 de madeira de espécies comerciais, que tenham um diâmetro mínimo de 50 cm.

Em cada área devem ser respeitadas restrições, como a preservação de espécies raras e árvores matrizes, e mantidos em pé pelo menos 10% do número de árvores por espécie. Após a colheita, explicou Reckziegel, "a área manejada fica em estado de pouso por 30 anos. Só então pode ser feita a segunda colheita". Todas as áreas são auditadas pela certificadora antes e depois do manejo.

Em 2008, o principal destino da madeira da Orsa Florestal foi a Holanda (57,04%), país cuja legislação estabelece que toda madeira utilizada em obras públicas deve ser certificada. O segundo principal mercado é o Brasil (28,37%). Segundo Amoroso, o mercado interno não quer pagar pela certificação devido à oferta de madeira ilegal.

Holding – Fundado em 1981 o Grupo Orsa é formado pela Orsa Celulose e Embalagens S/A, Fundação Orsa, Jari Celulose S/A e Orsa Florestal. É uma empresa de capital fechado e 100% brasileira. Gera 8.600 empregos e teve um faturamento de R$ 1,5 bilhão em 2008.
O Vale do Jari é formado pelos municípios de Laranjal do Jari e Vitória do Jari, no Amapá, e Almeirim, no Pará, onde se destaca o distrito de Monte Dourado. Nessa área vivem cerca de 120 mil pessoas. O grupo possui a maior área certificada com cadeia de custódia do mundo, com 965 mil hectares, sendo 545 mil de floresta nativa.

O grupo repassa 1% do seu faturamento bruto para a Fundação Orsa, que atua nas áreas de educação, saúde, meio ambiente, geração de trabalho e renda. O manejo comunitário é fomentado pela Fundação, assim como outros projetos, como o Agulhas Versáteis, uma cooperativa de costureiras que produz uniformes profissionais, e ainda a Associação de Mães Artesãs do Vale do Jari (Amarte), produtora de biojóias; a Cooperativa de Artefatos Naturais do Rio das Castanhas (Coopnharin) e a Cooperativa de Moveleiros do Jari (Coopmóveis).

Não madeireiros – A empresa está direcionando parte de seus esforços para a produção não madeireira. No final de 2008, o Grupo Orsa comprou a empresa Ouro Verde, com sede em Alta Floresta (MT), que processa 250 toneladas de castanha/ano e atua com as comunidades extrativistas, visando fortalecer a cadeia produtiva da castanha e o desenvolvimento de produtos como azeite extra virgem, pasta e castanha in natura.

Atendendo ao pedido da governadora, a Ouro Verde antecipou o início de suas atividades no Vale do Jari em um ano, ao liberar R$ 500 mil para a compra da castanha que corria o risco de se perder devido à retração do mercado, causando prejuízo aos extrativistas.

Durante a visita, Ana Júlia Carepa, Sérgio Amoroso e dirigentes de várias entidades que organizam a coleta de castanha assinaram um protocolo de intenções, que visa incentivar a formação de novos grupos produtores, a prática do comércio justo com as comunidades, o aumento da renda das famílias extrativistas e a eliminação gradual da figura do atravessador. A Ouro Verde pretende trabalhar com outros produtos, como o açaí e cacau.

Celulose – A governadora visitou ainda a fábrica da Jari Celulose, que tem capacidade para produzir 410 mil toneladas/ano de celulose branqueada de eucalipto. A empresa é 100% certificada FSC. A Jari Celulose possui uma área de 60 mil hectares de floresta plantada e potencial para chegar a 120 mil hectares.

O plano de investimentos do Grupo Orsa para os próximos sete anos no Vale do Jari, apresentado por Sérgio Amoroso, prevê a aplicação de US$ 3,4 bilhões em diversas áreas, como celulose, manejo certificado, curauá, energia limpa, pecuária e produtos não madeireiros, com previsão de gerar 10 mil novos empregos.

Antes de deixar Monte Dourado, Ana Júlia Carepa conheceu o viveiro de mudas da Orsa Florestal e plantou uma muda de pequiá (Caryocar villosum), em um bosque que abriga diversas essências da Amazônia, plantado pelos visitantes do Vale do Jari.

Ivonete Motta – Secom

 

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